quarta-feira, 20 de junho de 2018

A coisa que meu pai mais gosta de fazer na vida é pescar.
Se misturar com a água. Mergulhar e segurar o fôlego. Pegar o peixe com o mão e deslizar na correnteza como quem sabe o caminho do rio.
Ele fala pouco com desconhecidos. Nada em rio caudaloso com cuidado. Volta pra casa com peixe fresquinho.
A segunda coisa que meu pai mais gosta de fazer na vida é ser meu pai.
Olha, o amor do meu pai tem uma forma comovente que dura no tempo combinando firmeza e ânimo.
Meu pai queria ser sanfoneiro.
Meu pai foi vaqueiro.
Meu pai vive há mais de 40 anos de distância do lugar que ele queria ter ficado, cuidando da roça e dos animais. Eu sei as histórias mais bonitas e fantásticas vividas na fazenda "Boa sorte" - e em outras de nome que não guardei.
O Teo vive há 3 mil km de distância do meu pai.
Mas, eu carrego meu pai comigo, vou sendo ele pelo mundo já que ele não sai do Ceará.  Tudo que ele (e mãe) ensinou, toda cidade que morei e todo caminho que andei é ele sendo junto.
Deus queira que o Teo possa experimentar a boa sorte de ser um pouco sanfoneiro, um pouco vaqueiro e um pouco pescador pela boa sorte de ter um avô que sabe contar as melhores histórias que escutei na vida e que tem um colo que abraça como rio.
Eu to chorando, mas é de amor...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Escutei alguém dizer que há ideias que se esvoaçam e de improviso pernoitam em uma comunidade.
Imagine você o arroubo que ganham encarnadas em correios de tímidos e exagerados.
Como tudo que é compartilhado tende a construir a realidade, vão largando da ideia de serem ideias e passam a conceber novas gentes.

Era um elogio essa frase que escutei. 
Quem a falava pertencia a outros tempos.
A única intervenção que nos atingia vinha do mar que sacudido consentia à água ocupar as calçadas mesmo antes das chuvas. E nas chuvas, depositava mais areia que água.
Era de outra cidade que falávamos. 

Deve haver uma geografia no tempo.
Tempo de planalto, tempo de declives...
Uma paisagem política para um momento compartilhado. 

E eis que estou aqui caçando entender seus sinais e predizer os ancenúbios que transfiguram os tempos de depressão em tempos de vales.
A descompostura da terra árida que apenas observa o abeiramento do vale sobrevir.

Brotará olho d'agua.
Me designo olhar para o rio que vai existir. 
E quase entendo que o importante é fazer correr a correnteza. Os remanescentes residentes da depressão reconsideram morar próximo ao riacho.
E ao carregar ideias incomuns, escolhem as extraordinárias, justo aquelas que não espichavam nos tempos de chão árido.

Nos tempos de vale, haveremos de providenciar botes.
Navegaremos.
Iremos até outros relevos enxeridos para com o justo. 
Chegaremos ao cume de onde avistaremos o fundo côncavo e escolheremos não ficar se não estão todos. 
Retornaremos sem revir e a erosão do curso do água terá feito do estreito descampado (em tempos de depressão) um planalto alongado em que as águas e o brio circulam. 
Será de outra cidade que falaremos.  
Quando você foi ainda era verão. 
Nós que aqui ficamos por vós esperando já sobrevivemos a mais um equinócio sem confirmar a chegada do meteoro e agora estamos em uma nova estação: O outono, que se trata de mais uma dessas ficções paulistas que não existem no Ceará. 

Ouvi dizer que os atrasados  países ao norte só chegam até ele em setembro. 
Agradeço a quem traçou a linha do meio do mundo, e dividiu para um lado sul e para outro o norte, nos oferecendo a curiosa vantagem para chegar ao outono primeiro, porque caso contrário eu haveria de me devotar por esperar setembro para usar desse pretexto sazonal como forma para pedir seu urgente retorno.

Já tá é bom de voltar. Que ninguém nunca sabe quando vão inventar uma novidade em formato de teoria que para medir o tempo insiste em desconsiderar que a relatividade do custo dos dias tá no tamanho da saudade. ❤️

[Publicado no Instagram em 21 de março]

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Eu conheço o meu lugar!
No ultimo sábado - em um golpe de sorte consegui ingressos para assistir ao espetáculo em que Gero Camilo canta Belchior.
Quando eu saí do Ceará para morar no Rio eu me tornei mais cearense e tenho como guia a passagem bíblica: "Onde estiverem dois ou três cearenses reunidos já levanto a igreja e o Ceará estará no meio deles”.
Logo, não poderia perder a oportunidade de ouvir Belchior com o sotaque cearense de Gero!
Talvez alguém que tenha estudado com mais apreço as teorias antropológicas consiga racionalizar esse processo e explicar para vocês. Eu realmente não saberia como descrever o que é ter amor por um lugar, ter loucura por uma recordação. Porque falar disso já é um pouco como me distanciar disso em mais um pedaço .
No Rio, eu era a única nordestina da turma. Eu bebi pela primeira vez sopa de ervilha e creme de espinafre. Eu senti frio que entra pela roupa. Eu fui no samba dos pretos. E sonhava repetidamente que tinha encontrado um armador de rede na garagem do prédio. Era como aqueles sonhos que mostram o lugar da butija de ouro enterrada. Um arrependimento: Nunca fui na garagem procurar o armador.
Quando mudei para Brasilia, eu pensei: "aqui vou me sentir em casa! É todo mundo retirante..."
E perguntava para qualquer pessoa que conversasse comigo por mais de 5 minutos: "de onde você é?"
Minha ansiedade em encontrar os desconcertados-pero-já-adaptados-emigrantes foi dando lugar à um desapontamento quando eu entendi que a minha geração naquele lugar já era nascida lá. E aprendi que os brasilienses são também: ceilandenses, planaltinenses etc.
Finalmente, São Paulo. A urbs.
E aqui - de novo - eu passo pelo choque de ser estrangeira nas terras dozoutros.
Se engana quem pensa que eu vou falar da ausência de mar, da velocidade e da quantidade de carros-pessoas...
O que torna mais alucinante a vida em SP é ter que suportar no dia-a-dia a ficção construída em torno do nordeste.
Qualquer exemplo de falta, de pobreza, de sofrimento é resumido pelos paulistas em uma unica ideia com duas palavras:
"No nordeste...".
As pessoas substituem como regra o "era uma vez" das histórias por:
"No nordeste."
Foi assim, quando discutiam sobre os efeitos da "Operação a Carne é Fraca".
E alguém soltou: "naqueles açougues lá No nordeste.... "
Outro dia falávamos na aula sobre formação da sociedade brasileira e aquele monte de homem branco de sobrenome cheio de consoante começou a discutir se eram descendentes de portugueses ou de italianos - discussão que para mim não faz sentido algum.
Falei alto para que me escutassem - e alguém deve ter lembrado que No nordeste as pessoas fala alto -: "não sei vocês, mas eu sou descendente de indios e indias..."
Eles me olharam e alguém falou:
"No nordeste..."
Essa terra não é para nós.
É um delírio de pessoas que dizem ter descendência de alé'mar, em uma cidade que não tem mar.
Um dia eu ainda aprendo a gritar igual Belchior:
"Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!"

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

10 coisas sobre o último ano dos 32 e uma mentira:
-Uma cidade nova.
-Ter foto sem sorrir.
-A coragem da montanha. 
-Estudar contabilidade social, taxas de juros e política fiscal.
-Fazer terapia.
-Ler poesia feita por mulheres.
-O México.
-Voltar para as aulas de inglês - "É O Ciclo Sem Fim / Que nos guiará / a dor e a emoção..."
-O método túfo das experiências.
-Amansar os dias, reduzir os riscos. Ou, tudo que envolva não querer tragar o mundo com uma enorme língua de fogo.  [a grande mentira, o conselho eterno dos tarôs]
A-ca-bar.
O A-ca-ba-do.

Sou boa em por fim às coisas,
mas sou péssima em termina-las.

E tem uma outra coisa que faço pior,
ou melhor
me perder entre o fim e o novo começo.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A economia é aquela ciência de exatas que se reputa às de humanas.
No zoodíaco seria capricórnio com ascendente em leão, racional e impulsiva em contra-medida.
Na mitologia seria um deus temperamental e severo.

Desde os cenários de queda ou de expansão os motores das relações econômicas capitalistas não são propriamente números, cálculos, déficits ou índices de 6 dígitos iniciados em zero seguidos de vírgula e terminados em zero alcançados através de fórmulas incompreensíveis.
Mas, são sim, as expectativas.

A tendência à confirmação da possibilidade de realização para seus investimentos é o que instrui Joesley, Elisa da cantina, a menina de treze anos e eu.

O capitalista decide investir seu capital pela sua expectativa de lucro, o trabalhador gasta seu salário pela expectativa de sobrevivência, a classe média gasta suas economias com a expectativa de ascensão social, a menina de treze anos gasta horas do dia pensando nos dias à frente, eu gasto meu salário,
minhas horas,
meu pacote de internet
e
meu sol em leão pensando
em você.

Os códigos que orientam nossa ação resumem toda uma vida escanchada na lida com as expectativas que estão agora mesmo
em pé
aqui
na nossa sala enquanto escrevo, leio e tento
não pensar em você.

Passou uma tempestade por aqui e talvez você nem tenha notado, mas nas paredes pode vê a marca da água que inundou os cômodos. Inclusive, alguma parte do alicerce cedeu e deveríamos realmente estar preocupados com isso, porque isso parece uma coisa preocupante.
Apesar de não fazer sentido algum pensar em alicerces, já que falamos de expectativas.

Me diga qual das suas expectativas tem fundação e foi feito nivelamento no terreno?
Te respondo que nenhuma.
Qual resistiria a terremotos e enxurradas como as que vimos aqui esses dias?
Te respondo que todas.
Já te falei que elas estão
aqui
de pé
agora mesmo.

Os seus alicerces são pendentes e vagos.
E são sofisticados como os das construções incas preparadas para resistir,
são feitas de fôlego.

Mesmo a não realização da expectativa não põe a ela fim,
porque ela persiste
em pé
aqui na sala.
Dizendo como deveria ser.
E dura nos dias como frustração, como injustiça, como mau olhado, como inferno astral, como dor.

A expectativa em pé diante de mim nessa sala me rende.
Entrega minha devoção à juventude descompromissada, o apego à passionalidade, a afeição pela conquista e pelo conquistador
é tudo o que sou
sendo substância para ela.

Olha-la daqui a torna estúpida. Sobretudo, sobre a estupidez são feitos os alicerces das expetativas.
Mas, a cousa, o ente, o ato perjura existência
e se mantém aqui
em pé
no meio da nossa sala.