sábado, 3 de janeiro de 2009

Telha de vidro

      Quando a moça da cidade chegou
      veio morar na fazenda,

      na casa velha...
      Tão velha!
      Quem fez aquela casa foi o bisavô...
      Deram-lhe para dormir a camarinha,
      uma alcova sem luzes, tão escura!
      mergulhada na tristura
      de sua treva e de sua única portinha...

      A moça não disse nada,
      mas mandou buscar na cidade
      uma telha de vidro...
      Queria que ficasse iluminada
      sua camarinha sem claridade...

      Agora,
      o quarto onde ela mora
      é o quarto mais alegre da fazenda,
      tão claro que, ao meio dia, aparece uma
      renda de arabesco de sol nos ladrilhos
      vermelhos,
      que — coitados — tão velhos
      só hoje é que conhecem a luz doa dia...
      A luz branca e fria
      também se mete às vezes pelo clarão
      da telha milagrosa...
      Ou alguma estrela audaciosa
      careteia
      no espelho onde a moça se penteia.

      Que linda camarinha! Era tão feia!
      — Você me disse um dia
      que sua vida era toda escuridão
      cinzenta,
      fria,
      sem um luar, sem um clarão...
      Por que você nao experimenta?
      A moça foi tão bem sucedida...
      Ponha uma telha de vidro em sua vida!

[Raquel de Queiroz]

.escutei atentamente.
aguardava terminarem os discussos e chegar a hora dos abraços.
.foi lido por em papel de pão.
Porque como dito pela oradora, ela não guardava mais na memoria as poesias de criança. entre o som da sanfona, quase lágrimas e risos tímidos. o presente foi dado à mim e não à aniversariante.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
[Carlos Drummond de Andrade]

Resgatada.

Uma noite antes de viajar. pensando. olhando. pensando.

[confessei o descompasso da obeservação e pedi segredo]

Anotei a ordem abaixo no livro que estava lendo; como pra lembrar a mim mesma que não há graça nehuma em fotos de mar.

"Não deixo cair em meus ouvidos as fofocas que os olhos fazem acerca da graça da tua figura."
Menino, andei andando por ai. por isso demorei.

Eu nunca esqueço que gosto de andar.
mas, as vezes eu nao me escuto. e finjo que quero ficar por aqui.
Quando eu finalmente vou. é que eu percebo o quanto faz parte de mim correr o mundo.

Por isso demorei.
estava em busca de assuntos para rechear minhas falas de volta de ferias.
Achei.
[voltei mais desastrada que nunca. quando eu descolo do cotiadiano tenho essa reação adversa. mas, nada que eu não possa sobreviver.]

Voltarei logo mais para falar de todo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Lendo: o lustre.

"...era um menino estranho, sensível e orgulhoso, difícil de se amar. Ele não sabia dar um pretexto para esconder. Mesmo quando caía nas fantasias estas eram precavidas, familiares; ele não tinha coragem de inventar e era sempre ela quem numa facilidade surpreendente mentia pelos dois; ele era sincero e duro, detestava o que não via." [Clarice Lispector]

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Oração ao tempo

"Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo..."


Feita de urgência em uma situação de emergência.
Eis aí a materia-prima que me compõe.
Não poderia pedir que fosse calma. limpida. poça d'água.
Eu não poderia atender mesmo que o pedido fosse de um querido pedidor.
Me fizeram assim. preocupada. ansiosa. escapante. plenajante.
Desfaço-me deste segundo facilmente prevendo o próximo.
minha próxima trsiteza. minha próxima alegria. minha próxima via. meu próximo amor. meu próximo passo. minha próxima vida para os dias que acredito nela.
Esta proximação me causa calafrio. me entorpe com a angustia de espera do futuro.
Ah, se chegasse logo. se nao demorasse por demais que demora.
Ou, se o minuto agora durasse mais. duas vezes mais. Talvez essa fosse a minha solução.
Firmo um ajuste contigo.
é. com você que inveta e mede o tempo.
Se um minuto durasse o dobro do que me dizem eu teria tempo para existir nele e pensar no próximo.
Ah, sim. me seria descansado viver em um lugar de minutos com 120 segundos.
O tempo daria-me o tempo necessário de ser quieta.
Poderiamos então fazermos um acordo?
Tome o tempo que me sobrou em todos os minutos e me dê de bônus nos proximos. Não seria muita coisa. de fato. mas, bastaria por enquanto.
É uma proposta. Seria de grande delicadeza sua aceita-la,
Seria, aí sim, um tempo popício para quem é nascido urgente.
Bom, senhor guardador do tempo, de toda forma agradeço. as chuvas do início de ano. e a competência de planejar-me um calendário anual.

[*sei que terminamos orações agradecendo. pra não parecermos insatisfeitos por completo ou mal-agradecidos.]

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Documentando.


Eu nasci no século errado.
Meus parelhos eletrônicos nao me deixam esquecer diso. nem por um dia.
Neste momento, por exemplo, meu PC não me dá mais o ar da graça de um som.zim. Nem aquele som da janelinha do msn.
O MP4 liga. mas. não funciona.
Cansada de demonstrar minha falta de talento em lidar com esses imprescindíveis equipamentos do cotidiano moderno. Resolvi me render e enviar ao conserto minha câmera, quebrada há sei lá quanto tempo.
E o que aconteceu?
Para minha surpresa. Ela funciona como se nada tivesse acontecido. Fui testar. Com flash. sem flah. tudo funcionando direitim.
E se pode explicar essa personalidade temperamental dos meus bens quase duráveis?
-Eu me rendo. [bah!] Mas, aproveitei pra usar umas poses... só de teste claro. [hehehe]